James McSill

Como participar da chibatada crítica

Na minha opinião, a pior coisa para um autor é ouvir que aquela tão trabalhosa estória que ele escreveu não serve para publicação. Nós, que escrevemos, queremos criar uma estória de que todos – ou, ao menos, muitos no segmento para o qual escrevemos – gostem; que fiquem implorando por mais estórias como aquela.

Mas, o que acontece quando os cumprimentos não aparecem? Como a gente se sente quando aquela estória que se jura estar perfeita parece não despertar o interesse de ninguém? Como escritor 'free-lance' a princípio e, depois, como redator comercial, eu não estava acostumado a críticas ao que escrevia. Em ambos os casos, escrever por encomenda tem os seus privilégios. No entanto, dia veio em que comecei a me aventurar a escrever por prazer – ou porque uma estória gritava dentro de mim pedindo para sair - e aí me lançaram aos ouvidos a primeira crítica negativa. Quando meu coração despedaçado conseguiu bater de novo, notei que aprendera algo de grande valor a meu prórpio respeito: aprendi que lidar com uma crítica mordaz dói, mas a principal lição foi que, se quisesse um dia escrever de verdade, aquela situação inevitavelmente se repetiria. Confesso, fiquei desnorteado por um bom tempo, tentando entender COMO alguém tinha detestado o meu texto e mais – dito sem rodeios que o que escrevera não fazia sentido. E pior: além de não gostar da minha novela, contou para todo mundo da porcaria que eu havia produzido. Quem, eu pensava, encontra hoje em dia tempo e energia para tornar miserável a vida do autor? Muita gente, muita gente mesmo.

Foi quando, dentre esses críticos, falou-me uma voz amiga, que concordou com os críticos, mas me apontou os caminhos. E eu ouvi o que ele tinha para me dizer, escutei e, absorvendo cada palavra, segui em frente. Na minha inexperiência de guri, eu pensava que se escrevesse um texto que emocionasse a mim, emocionaria ao leitor, qualquer leitor.

Ledo engano.

O primeiro rascunho de um texto tem de emocionar o autor; já os rascunhos que se seguem têm de ser trabalhados nos detalhes para emocionar o LEITOR, o crítico e aqueles que nos odeiam ou são indiferentes a nós – não aqueles que nos amam.

Como escritores, temos de nos armar da mais ferrenha coragem e fortalecer a nossa couraça, porque couro grosso e coragem são os dois elementos essencias se decidirmos empreender essa jornada.

A voz amiga que mencionei começou me dizendo que, se eu quisesse criar uma estória para valer, e que valesse a pena publicar, eu tinha de me submeter a chibatadas críticas e sobreviver e finalizou com a declaração de que, qualquer coisa que sai da boca (caneta ou teclado - acréscimo meu) do crítico é apenas opinião DELE. Do que precisamos, ele me disse, é de amigos que opinem e nos apontem caminhos – que não  precisamos seguir, necessariamente – que sejam capazes de submeter o nosso texto à chibata crítica e que nos abracem logo após, após ver o sangue vertendo daquele texto - filho dileto e mui amado - de dias e noites de labuta.

Neste sítio, eu me proponho a ser o amigo que vai dar no teu texto uma chibatada crítica - como sou apenas um estruturalista (cirurgião de texto, hoje em dia) não sou crítico literário, que escreve para o jornal local, vale como se fosse apenas a opinião de alguém que lê de tudo, gosta  de opinar, gosta de embasar as suas opiniões e gosta de apontar caminhos e que, sobretudo, é capaz de ver o texto como uma obra --que quer ser publicada.

Submeter o texto à chibatada crítica antes de submetê-lo a um agente ou editora, ou mesmo a um parecerista, ajuda.

Regras de participação.

O Desafio:

Conseguirias escrever uma primeira página que me leve a querer virar a folha para ler uma segunda?

Claro que a minha opinião vai ser totalmente subjetiva!

Mesmo assim, gostarias de tentar?

Submete o seu texto através do email:

james.mcsill@gmail.com

 O que significa uma primeira página? Uma página tem normalmente de 16 a 22 linhas, em espaço dois, 1.5cm de margem, fonte 12, times new roman/ arial. Você pode pedir para eu não divulgar o seu nome, mas em seu email para mim, preciso que se identifique.Você quer enviar um capítulo inteiro para que eu veja a cena no contexto? Pode ser, se a cena me compelir a avançar, vou querer mais detalhes, que auxiliarão na análise e em minha posterior opinião

Eliane Accioly -  Dez 2008


Ando conversando com a Eliane Accioly.
A Eliane me submeteu um de seus contos para que eu desse a minha opinião.
Ela, como eu, reagimos a chibatadas críticas com um ímpeto de criatividade.
Aconteceu assim...

Parágrafo original:

Até que a vida nos separe?
 
De: Eliane Accioly
eliane@acciolyfonseca.psc.br
 
Transarei loucamente com a desconhecida e nunca mais a verei. Só então estarei a salvo da fissura que me devora, entidade furiosa serpenteando em mim, prometendo-me liberdade se cumprido o ritual. Apesar de meus talentos com o sexo oposto, não consigo. Atrair estranhas é fácil, o problema? Falho nessas situações, é mais forte que eu. Se as reuniões ganham seqüência - conversas, refeições compartilhadas, troca de livros, compareço firme e correto. Ganho uma amiga que eventualmente se apaixona e perco o mistério, concorda? De onde tirei tal maluquice? Quem sabe do jardim de mulheres proibidas que rodearam meu amanhecer? Lindas, macias ao toque, cheirando a pomar e romã - irmãs, primas, tias, madrinhas. [...]

Quando li, permaneci sem opinar...
Pedi que ela me enviasse o argumento.

Argumento :
 
Olá Jamie, [...]

Este conto é a respeito  de um homem que tem uma fantasia compulsiva: transar com uma desconhecida, e nunca mais vê-la. O mesmo homem também tem a esperança de que, caso isso aconteça, ele possa se ver livre da compulsão que o eletriza e fascina, mas o consome de tal forma, que prejudica sua vida prática, seus projetos afetivos, de trabalho, e os de ter uma família.

Achei o argumento fascinante, mas o texto acima, que ela me enviara, não fazia jus à idéia maravilhosa.
Foi uma chibatada fácil! Confessei para a Elaine que não havia entendido o texto inicial. A Eliane é poeta e o texto mostrava uma prosa poética, a meu ver, desnecessária, pois obscurecia o argumento de boa qualidade.

Trocamos mais e-mails em que lhe disse que, se quisesse que o texto tivesse apelo mais universal, deveria re-rescrevê-lo como se falasse com UMA pessoa, uma apenas, da idade, sexo e níveis cultural e social para quem quisesse dirigir a escrita.

Esta é a primeira pregunta que todo escritor deve se fazer: "Para quem estou escrevendo?" Se a resposta for "para mim mesmo", o que quer que esteja escrevendo passa a ser um diário, diários raramente têm valor comercial, exetuando-se, claro, diários de celebridades e afins, destes a gente sabe, até um pedaço de roupa suja vende. A resposta deveria ser: "estou escrevendo um conto (romance, etc) para..." e descrever o leitor (?imaginário) em pormenores. Quando temos um leitor específico em mente, ajuda-nos a focar o texto, da uma voz ao contador da estória. Interessante é que jamais contaríamos "A Gata Borralheira" para uma senhora, avó, física nuclear aposentada, seis livros publicados do mesmo jeito que contaríamos para uma menina de cinco anos, no pre-primário, bailarina.  E quantos escritores conheço que "escrevem para si mesmos"...
Por que somos tão egoístas na hora de escrever?
O "fazer bonito" é garantir que a nossa audiência nos entende...

E foi o que a Eliane fez!
Contou o conto para mim.
E olha o resultado!
Quem tem talento como a Eliane, aceita o desafio e supera todas as expectativas.


Até que a vida nos separe
 
Conheci-a em um bar onde homens e mulheres solitários vão se distrair da angústia da própria solidão. Em Virgínia havia o mistério que me atrai nas mulheres. “Pisca para mim”?! Perguntei-me emocionado e curioso, prisioneiro daqueles olhos semicerrados, dos lábios de meio sorriso esboçando um chamado sem palavras: “Venha!”
Obedeci prontamente, paguei a conta e, ainda sem nos falarmos, a puxei pela mão, saímos juntos, entramos no hotel do outro lado da rua, pedi um quarto.
“Enfim sós”
Descompassados de desejo despimos um ao outro, frenéticos. Estava certo que naquela mulher escondia-se a desconhecida com a qual ansiava transar loucamente. Após a relação amorosa eu a deixaria para nunca mais revê-la. Precisava deste ritual para me curar. Se conseguisse penetrar na linda e misteriosa mulher estaria livre para viver minha vida, liberto do delírio que me acompanha desde a adolescência, “fissura que me atormenta e me rouba o sossego, atrapalha meu trabalho, me impede de formar uma família”. Possuir Virgínia, a desconhecida, apagaria o delírio, brasas na água, tinha certeza! [...]

Parabéns!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com

Rogério Silva - Jan 2009

 

Rogério Silva

 

O Rogério estuda Educação Artística, é aluno da minha amiga Meri e um dia quer ser escritor.

Vamos então às primeiras linhas do texto (um conto).

 

(original)

No calor do fogo na lareira da pousada, Paulo recostava-se no sofá e puxava o boné para lhe cobrir os olhos. Lá fora o Minuano zunia fazendo tremer o madeiramento do chalé. Paulo levou os pés para cima da cadeira de madeira junto a mesa na sua frente. Ele precisava se manter acordado. Para tal, esmurrou o braço do sofá excomungando aquele fim de mundo onde se metera. Havia prometido a Nora que viria para o seu aniversário e ali estava, não era seu feitio quebrar promessas. Ela não iria ter desculpas para reclamar que não era amada pelo pai.  

Começaste com uma cena. Bom! Fora alguns problemas que antevejo no cenário e na ordem das palavras que escolheste para conduzir o texto, nada além disso me fez largar o teu conto até a cena final. No entanto, acho que, para a publicação, podia haver mais tensão. Certo, Paulo está hospedado em algum lugar frio do Rio Grande do Sul (Minuano – lembro-me muito bem!), acha que é o fim do mundo, parece que vai dormir e esmurra o sofá (vê abaixo comentários sobre esse pormenor) mas a única coisa que ficou no ar foi se ele vai ou não vai a festa de aniversário da filha. Pela determinação dele, é bem provável que vá, o que não me parece muito problemático.

Se me permitires, vou anotar uma coisinha ou outra no teu texto.

No calor do fogo na lareira da pousada, Paulo recostouava-se no sofá e puxouava o boné para lhe cobrir os olhos, protegendo-os do calor da lareira da pousada. Lá fora o Minuano zunia fazendo tremer o madeiramento do chalé. (corta o “madeiramento” a não ser que o madeiramento vá fazer parte da trama mais tarde, o que não me pareceu que faria ao ler o resto. Que o Minuano fazia tremer o chalé, normalmente chalés no Brasil já são feitos de madeira, que treme ao vento [nos EUA podem ser de fibra de vidro, que imita madeira] Se o “óbvio não for o CERNE da trama, quanto mais o empurrarmos para o pano de fundo, melhor) Paulo levou os pés para cima da cadeira de madeira (mesma razão; chalés são feitos normalmente de madeira) junto da mesa na sua frente. (eu iniciaria a cena com essa ação)  Ele precisava se manter acordado. Para tal, esmurrou o braço do sofá excomungando aquele fim de mundo onde se metera. Havia prometido a Nora (eu sei que não há a crase, mas para o desavisado, soa como ele tivesse prometido à nora)  que viria para o seu aniversário (eu trocaria o 'seu' por ‘dela’)  e ali estava, não era seu feitio quebrar promessas. Ela não iria ter desculpas para reclamar que o pai não a amava não era amada pelo pai.  (voz ativa fica sempre melhor)

Talvez aqui eu esteja exagerando, mas, quando ele puxou a aba do boné achei que ela ia descansar ou dormir. De repente ele precisava ficar acordado e partiu para esmurrar o sofá. Pareceu-me o contrário do que ele havia feito antes. Que tal dizer que “ele ergueu a aba do boné e o calor da lareira lhe ardeu os olhos”?

Para mim, essas coisas têm de ficar claras já no início. Na abertura da cena, de preferência.

Segue a minha versão, se discordarem, escrevam-me.

(Como ficou – na minha mera opinião! – preservando o estilo do Rogério)

         Paulo levou os pés para cima da cadeira da mesa na sua frente, recostou-se no sofá e puxou o boné para lhe cobrir os olhos, protegendo-os do calor da lareira da pousada. Lá fora, o Minuano zunia fazendo tremer o chalé.

         Precisava manter-se acordado. Para tal, esmurrou o braço do sofá excomungando aquele fim de mundo onde se metera. Havia prometido a Maria que viria para o aniversário dela e ali estava, não era o seu feitio quebrar promessas. Ela não iria ter desculpas que o pai não a amava.

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com  

Frederico Paiva - Jan 2009

 

Trecho do Romance “Madeira” de Frederico Paiva, Tomar, Portugal

 

Frederico,

Vou reproduzir apenas uma linha, o teu parágrafo tem pelo menos trinta das dezesseis que normalmente analiso. Por essa, podes pautar as mudanças que venhas a fazer em teu texto.

 

             O meu carro velho estava avariado…

 

Mesmo com descrições que nada tenham a ver com as emoções expressas pelos personagens, há maneiras de “mostrarmos” ao invés de apenas “contarmos”. O problema é que temos essa mania de dizer que vamos “contar uma estória”. Bobagem. Para que alguém se interesse no nosso texto, temos de MOSTRAR a estória. Talvez seja porque toda gente anda acostumada a ver filmes, mas, hoje em dia, é assim.

 

Que tal, em vez de ‘contares’ ao teu leitor que o carro era velho e estava avariado, poderias mostrar o teu protagonista enroscando dois fios desencapados para ligar as luzes, ou mostrar o carro passando por uma poça de água e a água entrando pelo soalho do carro, molhando os pés do motorista. Pessoalmente não entendo de carro, mas, em suma, mostra ao leitor as condições do carro e deixa-o chegar à conclusão por si mesmo.

 

(Como não entendo de carros, não arrisco reescrever o início do teu parágrafo J )

 

Boa sorte!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com  

Vera Wurzius - Jan 2009

A Vera, gaúcha de Mato Grosso, me enviou um texto completo.

Seguem os comentários das primeiras linhas.

 [...]

Hoje não seria um dia normal na vida de Stella Bergman. Logo pela manhã, ela já cantarolava dentro da enorme banheira toda feita do mais fino mármore preto. Por um momento, Stella deixa as lembranças cortar seu sorriso e as lágrimas brotam em seus olhos. Recordar seu passado não era o que mais lhe agradava. Mas, desde que tornara-se uma mulher mundialmente conhecida, não dava mais para fugir das curiosidades das pessoas que a admiravam, sendo assim, uma jovem escritora, a convencera escrever sobre as suas memórias.

“E Douglas?” lembra ela. Não conseguia entender como pudera deixar este homem sair de sua vida, amando-o tanto. O tempo passou tão depressa, mas, algumas coisas pareciam tão recentes ainda.

Essas sete linhas estabelecem o tom da trama e nos apresenta os personagens. Eu diria que é uma cena bem escrita para um belo romance, normalmente para senhoras. E olha que é um mercado enorme. O texto é de ficção comercial, imagino que deve ser o que a Vera quis escrever.

O primeiro parágrafo nos avisa que vamos ler sobre COMO a Stella ficou rica e famosa. O que me preocupou um pouco, quando fui avançando no original, foi o desenvolvimento das cenas com o foco no COMO. Se a Vera dividir a trama em três atos: uns 15% do texto na introdução, uns 70% no desenvolvimento – com muitos pequenos percalços no caminho da Stella – uma cena devastadora por volta dos 80%/ 85% da trama, uns 10% para concluir e um “denouement”  de 5%, vai ficar redondinho.

O que me preocupou bastante foi se eu já havia lido algo muito parecido. No entanto, embora para mim pode parecer um problema, uma editora procurando “mais do mesmo” vai querer publicar na hora!

Os três primeiros anos da ausência de Douglas, seu primeiro marido, (eu tentaria encontrar outra forma menos explicita de dizer que o Douglas foi o primeiro marido – a “informação” ficou jogada. Talvez a Stella pudesse se lembra de algum fato que nos deixasse ficar sabendo que ele fora o primeiro) e os maus-tratos que a levou a abandonar seus dois filhos. Não podia perdoá-lo, repetia inúmeras vezes que nunca o perdoaria. “E o Eduard, porque Deus tirou ele de mim?” (deixa a cena acabar aqui, o início do próximo parágrafo servirá de transição.)

Os seus pensamentos são interrompidos pelo insistente toque do telefone. Ela sai da banheira, veste o roupão e procura pelo telefone. Logo ela o acha meio a várias roupas que estão espalhadas pela cama,  se jogando sobre as roupas ela atende. (vamos acelerar a cena! Se ela disse ‘alô’ é porque atendeu…)

¾  Alô!

¾ Não acredito, Stella! Você ainda está em casa? Reclama o homem do outro lado da linha.

Stella joga-se sobre as roupas. (olha onde foi parar a ação. Ele reclama, ela se joga sobre as roupas. Essa Stella é de morte!)

¾  João Carlos! Onde você está? Pergunta ela rindo.

¾  Na hípica, aturando estes bandos de malucos. Você já não deveria estar aqui? Se afogou na banheira? Pergunta ele irritado. (muita “pergunta” para pouco diálogo, ele já estava reclamando três linhas acima, MENOS é mais).

 Envia o teu texto para a Mesa do Editor e vê o que acontece...

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 
 

Berê - Fevereiro 2009

 

Berê, de Leme, SP, me enviou um conto para crianças.

 

Embora Berê não me tenha especificado a faixa etária a que o conto se destina, lendo-o, calculo que seja para pré-adolescentes.

 

Em literatura comtemporânea, a regra básica para iniciar um conto/ romance seria:

 

Marca o exato momento em que a situção em que se encontra o personagem MUDA. Depois, inicia:

 

  1. Um pouco antes
  2. No momento da mudança
  3. Um pouco depois

 

Evita uma visão panorâmica do cenário antes de avançar na trama.

 

Digo isso para que entendas porque editei as promeiras linhas de teu texto assim:

 

 

Já vi menina gostar de bicho, mas como a Larissa...

Larissa, diferente de seus amiguinhos da cidade, mora no campo e sabe muito bem que o leite vem da vaca e que são as galinhas que põem os ovos gostosos que a merendeira prepara mexidos com tomate na escola.

E por falar em galinha, Larissa  tem uma que é só dela: a Angélica.

Angélica assiste televisão com a menina. Larissa. Fica quietinha e, dependendo do programa, tira até uns cochilos! - como faz o pai da Larissa.

 

(Em contos infantis, abusar do uso do nome do protagonista – e de todos os personagens relevantes  -- não faz mal.)

 

Um dia, dona Graça, a mãe de Larissa, chegou da cidade e levou um susto: não é que Larissa tinha dado banho na Angélica!? A pobrezinha da galinha estava lá no varal, pendurada pelas asas, secando ao sol junto com as outras roupas!...

 

(a pontuação sempre é melhor se for menos complexa)

 

Mas com Larissa é assim: ela atrai os bichos, que ficam quietinhos, hipnotizados,  ouvindo as suas histórias.

Os pardais e os bem-te-vis e os pombinhos vêm comer pão na sua mão e estão sempre rodeando a sua cabeça.

 

(Sugiro apenas UM exemplo. Ou usa-se a galinha ou os pardais. Deixei a galinha, é mais engraçado).

 

 

Escreve sempre. Sinta-te em casa!

Aproveita a sessão de Perguntas e Respostas e envia tuas perguntas para: james.mcsill@gmail.com  Visita também a página com perguntas já respondidas para outros amigos.

Márcia Basto - Fevereiro 2009

Márcia,

Vou tomar um trecho do miolo do teu conto para chibatar. O começo ficou muito bom, mas de repente, entraste em “modo narrarito” e não saiste mais.

O interessante em qualquer conto ou romance comercial é mostrarmos o personagem em ação, como num filme, e deixar que o leitor possa inferir por si o que o personagem é, sente e, até mesmo vê, degsuta, ouve...

Quando escrevo, me pauto pelo que chamo os “fator eu-com-isso?” (traduzido de “what-do-I-care factor?”). Coloco-me no lugar do leitor e me pergunto: “E daí? Que me importa?”

Se o autor aparece na tela e começa a me contar a estória, quero que ele se afaste e deixe-me ver o que está acontecendo!

Tenta reescrever o trecho abaixo e forma tal que não me contes, mas que, pela ação e reação da Clara eu perceba (veja). Olha o comentário acima que fiz do trecho do Frederico Paiva.

Clara tinha uma aguçada sensibilidade que lhe permitia enxergar as sutilezas de cada coisa.

Verdade? Qual? Como? Em que situção?

Aspectos que escapavam ao olhar comum. Graças a essa sensibilidade era habilidosa nas relações interpessoais. Sabia, como ninguém, deslocar-se para o ponto de vista alheio e compreende-lo.

Sim... e??

Nisso residia sua liderança e a razão das amigas sempre a elegerem como ‘conselheira’.

Que tal começar a cena com a eleição de conselheira? Ou, melhor, SENDO a conselheira das amigas?

Ao mesmo tempo, esse sentir em demasia causava-lhe angústia diante de situações que não afetavam tanto às outras pessoas.

Olha que linda oportunidade para criar uma cena, continuando a que ela era conselheira...

Lutava contra essa sensibilidade exacerbada responsável pelas brechas por onde entravam emoções perturbadoras. Desejava-se mais fria e racional.

MOSTRA o dilema! Quero ver a Clara sofrendo, sofrer com ela! Não quero que me ‘contem’ que ela sofre.

Idêntica à imagem que construíra para si.  Além de tudo sentia uma fome de algo inonimado, uma carência nunca preenchida.

                             Sim... E????

 Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Odair Miguel - Março 2009

 

Olá Odair,

 

A primeira página está bem escrita. Embora cravejada de “clichés” como “lágrimas que escorriam pelas faces”, “não conseguiu conter as lágrimas” já deu o recado. Claro, se “escorrer pelas faces” fizer parte da história, digamos, “deixando riscos azuis” [Ah! Como alguém pode chorar lágrimas azuis? -- “escorrendo pelo sulcos” [Ah! Deve ser uma pessoa idosa.] Etc.

 

Em resumo, a página de abertura não pode ter texto “frouxo”. Deixa apenas o essencial. Essas coisas que passam batidas para o leitor, não escapam ao olho do editor profissional! Este trabalho podes fazer em casa, antes mesmo de passar o texto a um especialista em estrutura ou a um parecerista, que vão apontar outras coisas.

 

Se o teu manuscrito chegasse à minha mesa cedo da manhã e fosse o primeiro a ser lido eu correria os olhos à segunda página para ver como continuasses a história. Se fosse o 20º. manuscrito do dia, eu leria a primeira frase e pensaria “outro livro de aventura e piratas, começando em 1675….hum…não vou ter tempo de ficar pesquisando os fatos ou verificando a linguagem da época… hum… começa com descrição(cenário), os personagens já entram na linha – conto as linhas – 21… hum, tarde demais, isso já vai ser a segunda página se o livro for para uma livraria… hum … quando aparecem os personagens ele ainda está contando em vez de mostrando…. Hum… e ainda por cima joga um “cliché” … está bonitinho, mas tem de editar mais…”

 

Ou seja, embora a tua abertura funcione para o leitor, até chegar ao leitor tem de passar pelo ‘filtro’ do editor.

 

Dito isso, seguem a minha sugestão e opinião, caso queiras estruturar o romance para que tenha uma chance real. A questão que pus a mim mesmo foi: “se for o 20º. manuscrito, o que me faria meter umas páginas na minha valise e continuar lendo no trem para casa?”

 

Vamos lá!

 

 

BUCANEIROS

 

O Intrépido Capitão Floyd

 

 

Capitulo 1

 

 

O Naufrágio

 

Outono de 1675, a temperatura estava abaixo do normal. O condado de Brighton, localizado à beira-mar, no Sul da Inglaterra, apresentava um aspecto tenebroso. Uma neblina intensa pairava sobre o lugarejo, enquanto as folhas das árvores caídas ao chão esvoaçavam com o vento gelado.

Uma multidão estava em frente ao portão do castelo, protegido por soldados bem armados, o povo em altos brados, clamava por notícias a respeito da prisão do administrador do castelo.

A notícia da prisão de Willian Floyd, que era bem quisto por todos, tinha se espalhado pelo povoado, mas ninguém conseguia saber que crime ele havia cometido. Além da popularidade que o prisioneiro gozava entre os mais humildes, ele era muito bem relacionado com os membros da alta Corte Inglesa.

Por que um homem sempre disposto a ajudar os necessitados, fora feito prisioneiro? Do que ele estava sendo acusado? Essas e outras questões intrigavam a população local, que revoltada, enfrentou o mau-tempo e foi até o castelo exigir explicações.

De repente, os portões se abriram e um pelotão abriu passagem por entre o povo. A cavalaria passou escoltando o prisioneiro amarrado. Os soldados armados intimidavam o povaréu, conseguindo, assim, conter a multidão.

Anne e Caroline eram respectivamente a mãe e a irmã de Willian Floyd que, misturadas ao povo, que escorriam por suas faces.

 

(começa em meio a ação. Deixa o restante para depois!)

 

Anne e Caroline choravam.

– O que o duque pretende fazer com ele o meu filho? – disse Anne chorando.

– Isto é humilhante, senhora minha mãe, mas tenho fé em Deus e a certeza de que meu irmão provará sua inocência – disse Caroline inconformada.

A cavalaria conduziu o prisioneiro em direção ao porto de Brighton, seguida pela multidão. Chegando lá, o prisioneiro foi entregue aos cuidados do Capitão Watterson. O acusado foi forçado a subir a bordo, em meio aos protestos da multidão. Mas, e tiros detonados de mosquetes que foram disparados para o ar, por alguns soldados, fizeram os manifestantes se calarem.

Pouco depois, a fragata “Winner” da Marinha Real Inglesa que estava preparada para zarpar, levantou âncoras do porto daquele condado com destino à Jamaica.

 onde o criminoso seria entregue ao governador local. William Floyd, desconsolado, agora estava cativo no porão, amarrado à coluna de sustentação da coberta superior, enquanto o navio se distanciava cada vez mais do condado.

Depois de alguns dias depois de viagem, a fragata “Winner” já havia atravessado o oceano Atlântico, e estava navegando pelo mar das Antilhas. Na coberta superior, junto à amurada, os marujos observavam a linha do horizonte, preocupados, pois algumas nuvens negras prenunciavam uma forte tempestade. A tensão entre os tripulantes crescia

 

 

RESULTADO

 

 

Prólogo

 

A cavalaria conduzia o prisioneiro em direção ao porto de Brighton em meio aos protestos da multidão e tiros de mosquetes disparados para o ar. Em poucas horas, a fragata “Winner” da Marinha Real Inglesa levantaria âncoras com destino à Jamaica com William Floyd cativo, amarrado no porão à coluna de sustentação da coberta superior.

Anne e Caroline choravam.

– Isto é humilhante, senhora minha mãe, mas tenho fé em Deus e a certeza de que meu irmão provará sua inocência.

 

 

[vira a pagina]

 

 

 

Mar das Antilhas

Outono, 1675.

 

Capítulo um

 

A tensão entre os tripulantes crescia. No horizonte, nuvens negras prenunciavam uma forte tempestade…

 

 

ANÁLISE DO RESULTADO

 

 

Prólogo

 

A cavalaria conduzia o prisioneiro em direção ao porto de Brighton em meio aos protestos da multidão e tiros de mosquetes disparados para o ar. Em poucas horas, a fragata “Winner” da Marinha Real Inglesa levantaria âncoras com destino à Jamaica com William Floyd cativo, amarrado no porão à coluna de sustentação da coberta superior. (Ação – a cena já mostra: movimento, multidão,  o prisioneiro (?protagonista), localização (Brighton); a razão das mulheres chorar – o que ia acontecer com o filhoe irmão em poucas horas, para onde ele vai, onde vai, por que vai. Ou seja, o editor – e leitor – já esta ‘babando’ para saber o que vai acontecer com o William! E vai continuar lendo.)

Anne e Caroline choravam.

– Isto é humilhante, senhora minha mãe, mas tenho fé em Deus e a certeza de que meu irmão provará sua inocência. (Reação ao que está se passando. Insinuando o ponto central da trama – um inocente está sendo deportado. Ao nível da estrutura, interrompo o prólogo na reação para forçar o leitor a virar a página em busca da próxima ação.)

 

 

[vira a pagina]

 

 

 

Mar das Antilhas

Outono, 1675.  (tudo que se precisa saber)

 

Capítulo um

 

A tensão entre os tripulantes crescia. No horizonte, nuvens negras prenunciavam uma forte tempestade… (observa que na micro-estrutura, inverti. Pus primeiro a reação dos tripulantes às nuvens para criar tensão, se fosse um filme, eu teria filmado a agitação antes de mostrar as nuvens carregadas. Na macro-estrutura, isso seria ação, a proxima etapa seria mostrar as consequências – muito provavelmente levando à cena do naufrágio!)

 

 

OK.

Viste Odair, as etapas do editoramento?

1.      Cortei a “gordura do texto”

2.      Mudei a ordem para salientar a beleza da trama.

 

Vou estar em SP no mês que vem, traz o texto para o nosso papinho a respeito de editoração de texto.

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Sônia Duarte - Março 2009

Sônia,

 

Um agente ou editor recebe milhares de manuscritos a cada ano. No mês em que anunciei, acenando com a possibilidade de levar alguns manuscritos brasileiros ao conhecimento de editoras internacionais, recebi trezentos em poucas semanas. E dedico, por ora, apenas UM dia por semana a essa empreitada.

 

Digo isso para deixar claro que um manuscrito pode ser excelente e, ainda assim, porque a cena de abertura não chamou a minha atenção, não vai também chamar a atenção de um editora que terá de investir, se for o caso da publicação no exterior, entre dez a vinte mil dólares em contratos, tradução, adequação, etc etc, distribuição, publicidade… é uma lista sem fim.

 

No meu trabalho de consultor, se eu for contratado por um autor (coach ou “cirurgião de texto”), lido com o manuscrito em várias etapas: DURANTE a elaboração do primeiro rascunho, na estruturação final, ANTES de ser enviado a um revisor e posteriormente a um agente (ou editora) ou APÓS o texto ter sido aprovado por um comitê editorial, mas precisam de uma reestruturação mais apurada para vender. Esse é o “inferno” em que vivem os autores famosos, se já tiveram um best-seller tem de lutar para conseguir um segundo, ou um terceiro…

 

Se eu for contratado por uma editora, normalmente lidero uma equipe que vai trabalhar com um texto excepcional, garantindo a mesma, uma maior chance de sucesso do “produto final”. Não sou revisor e nunca trabalhei com copydesk e nem como editor final de texto. O meu trabalho é mexer no texto para que ele se torne comerciável ou, pelo menos, tenha uma chance de ser lido além das primeiras linhas.

 

Vamos lá, então…

 

As duas frases em vermelho servem para introdução. Principalmente “meu nome e Paulo de Tarso”. Se quiseres escrever para um grupo de “iniciados” neste gênero de literatura, pode iniciar por aí mesmo. No entanto, os parágrafos seguintes são totalmente expositivos e matam a abertura de qualidade. Lembra que a primeira pagina e o carto de visitas, quando mais simples e impactante, melhor.

 

Eu começaria “Nos meados do ano de 2008”.

 

Meu nome é Paulo de Tarso. Sou jornalista, tenho vinte e sete anos, sou moreno, alto, olhos verdes, cabelos castanhos chegando à altura dos ombros. Recebi este nome, porque na história da humanidade, ele possui um forte significado de transformação.

 

Quanto a minha história de vida, ela poderia ter-se incorporado a tantas outras, ficando perdida nas entrelinhas das páginas empoeiradas do tempo, se não fosse à identidade vibratória junto a pessoas especiais.

A história a seguir transformou totalmente minha vida. A princípio pensei não estar preparado para tudo que acontecia, porém na medida em que o tempo passava, eu percebia que quantos mais os fatos se desenrolavam a minha frente, mais responsabilidades eu assumia perante o meu destino, como também de toda raça humana.

Tudo começou na noite da minha formatura, foi quando recebi a notícia sobre a morte trágica de minha mãe.

Filho único, criado sem pai eu me revoltei. Na manhã seguinte ao enterro encontrei um antigo conhecido Augusto Pimentel, ele percebendo o veneno da revolta que eu destilava contra a vida, contra Deus, incitou-me a escrever colocando para fora todo meu ódio. Disse que seria uma maneira de aliviar minha dor.

Eu não imaginava que Augusto fazia parte da “SINT”, ou seja, “Seita Inferno Na Terra”, onde até sacrifícios humanos já haviam sido cometidos. As páginas que escrevi foram então copiadas sem que eu percebesse, sendo distribuídas entre os membros da seita e em vários locais da mídia, levando dez pessoas a cometerem o suicídio, sendo oito da própria seita. Tentei provar minha inocência, mas o computador apreendido na minha residência comprovou tais escritos. Fui julgado como integrante da seita, e condenado pela justiça terrena a vinte anos de reclusão. Durante o julgamento havia perdido os sentidos por duas vezes. Meu advogado recorreu, e o juiz sentenciou que antes de ir para a prisão, eu deveria passar por uma avaliação psiquiátrica. Deixa a história passada (backstory) para mais tarde, poderá ser “revelada” num diálogo, quem sabe.  

 

Nos meados do ano de 2008, eu estava internado na Instituição Psiquiátrica Dr. Newton Monteiro.

 

Essa Instituição era de cunho particular e recebia vários apoios, inclusive federais. Era um grande prédio com arquitetura antiga de três andares, pintado na cor rosa, a dois quilômetros da grande e próspera cidade de Amarell, e por ser uma construção isolada, chamava a atenção dos motoristas que passavam pela estrada asfaltada.

Naquela noite, as luzes de alguns postes junto à claridade da lua minguante, deixavam à mostra uma muralha bem alta que cercava todo o local.

Por trás dos muros, pequenos postes clareavam a frente do prédio, onde existia um belo jardim com pequenas árvores de um metro e meio de altura podadas com formas arredondadas. Elas eram cercadas por canteiros com plantas cheias de flores coloridas. Um gramado totalmente verde compunha o restante do cenário. Pequenos caminhos contornavam a frente e as laterais do prédio. O lugar mais parecia um paraíso do que uma instituição para pessoas com transtornos mentais, tamanho era o cuidado e a organização.

Apesar da beleza natural e arquitetônica externa, era possível uma vez ou outra ouvir sons de gritos, choros e até mesmo algumas risadas, vindos da parte interna.

Aquela noite parecia transcorrer de maneira normal, como todas as outras.

Mas algo diferente pairava no ar. As árvores permaneciam totalmente imóveis, e até os ruídos naturais da noite, como o normal cricrilar dos grilos, não se ouvia. Os animais são sempre os primeiros a dar sinais quando algo sobrenatural ou calamitoso está para acontecer. Eles possuem uma intuição aguçada e percebem os perigos antes das pessoas, refugiando-se em lugares mais seguros. Nomeaste a instituição, e tudo o que o leitor tem de saber neste momento! Não tira o foco do PRINCIPAL, ou seja, o protagonista está internado e algo vai acontecer, à noite, começando do lado de fora do prédio. Pessoalmente, eu cortaria a palavra “sobrenatural” deixando apenas “calamitoso”, ou cortava as duas, para concentrar o foco do leitor no” passar do tempo e presságios” E na “brisa”.

Com os passar dos minutos, os presságios foram se confirmando.

Primeiro surgiu uma brisa vinda do norte. Ela foi aumentando, até se tornar um vento frio e forte...

 

Entendo perfeitamente que a gente, quando escreve, quer que já na primeira página tudo fique muito claro para o leitor. Mas não é necessário. Corta tudo e deixa apenas a PONTA do fio da meada e vai tecendo a tua trama a partir daí. No caso dos parágrafos acima, a descrição da clínica, embora muito bem escrita, não tem um elemento que me diga “Uau! Nunca li antes o exterior de uma clínica sendo descrito assim!” Quando fores usar narração ou descrição, o truque é surpreender o leitor/agente/editor. Se não surpreenderes, principalmente no início, quando ainda nem tivesses tempo de FISCAR o leitor, corres o risco de perderam o interesse.

 

Como ficaria, então, uma abertura que me “empurraria” a ler mais?

 

Nos meados do ano de 2008, eu estava internado na Instituição Psiquiátrica Dr. Newton Monteiro.

Naquela noite algo diferente pairava no ar. As árvores permaneciam totalmente imóveis, e até os ruídos naturais da noite, como o cricrilar dos grilos, não se ouvia. Os animais são sempre os primeiros a dar sinais quando algo sobrenatural ou calamitoso está para acontecer.

Com os passar dos minutos, os presságios foram se confirmando.

Primeiro surgiu uma brisa vinda do norte. Ela foi aumentando, até se tornar um vento frio e forte...

 

Quando enxugamos a um parágrafo mais concentrado, podemos editá-lo de várias formas. Como autor, tens de escolher o foco (ou a ponta do fio) e ir puxando. O parágrafo acima, claro, tem de ser repensado, ficaram faltando as transições. Podes reescrevê-lo e enviar para mim.

 

Tentei recriá-lo abaixo, enxertando uma breve descrição da clínica como vista por fora.

 

Nos meados do ano de 2008, eu ainda estava internado na Instituição Psiquiátrica Dr. Newton Monteiro.

Naquela noite, eu sabia, algo diferente pairava no ar. Primeiro, as árvores permaneceram totalmente imóveis, e até os ruídos naturais da noite, como o cricrilar dos grilos, não se ouvia. Os animais são sempre os primeiros a dar sinais quando algo sobrenatural ou calamitoso está para acontecer, não é verdade? Depois, para o meu assombro, com os passar dos minutos, os presságios foram se confirmando. Dos pequenos caminhos que contornavam a frente e as laterais do prédio surgiu uma brisa. Ela foi aumentando, até se tornar um vento frio e forte...

 

Restringi o ponto de vista, o que “aperta” ainda mais a cena, já que o ponto de vista é primeira pessoa. Achei que seria mais importante uma breve descrição da clínica do que dizer que o vento vinha do norte. Mas teríamos de ler mais do texto para decidir a sequência lógica.

 

Um exemplo. Foco no “sobrenatural”:

 

Com os passar dos minutos, os presságios foram se confirmando.

Primeiro surgiu uma brisa vinda do norte. Ela foi aumentando, até se tornar um vento frio e forte…

 

E assim vai. Podemos variar ao infinito ou ao que a editora achar que vende!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Celso Falconi - Março 2009

Olá Celso,

 Sucesso com o teu programa de rádio. A tua estacão transmite via Internet?

 

Li cinco páginas do teu romance. Sem parar! (Só não continuei porque dedico um dia por semana a essa minha nova empreitada de contatos com o Brasil e, com a palestra em SP sendo anunciada, a minha caixinha esta repleta de e-mails).

 

Podes ver outros comentários que escrevi nas ‘chibatadas’, abaixo seguem os comentários especificamente do teu texto.

  

 

A CHEGADA

 

 

                Ezequiel olhou em algum ponto do horizonte através da entrada da gruta.

            Ao seu lado, Gabriel rabiscava o chão com a ponta dos dedos.

            Na cabeceira de uma improvisada mesa de pedra Samuel, de olhar manso, e firme observava atentamente os dois irmãos.

            Vários anos se passaram, dezenas de ciclos lunares aconteceram enquanto Ezequiel de olhar fixo no horizonte observava as primaveras acontecerem. Via as  folhas nascerem crescerem e caírem amareladas.

            Samuel então suspirou e, enquanto inspirava, do lado de fora da gruta uma loba trouxe ao mundo sua ninhada de quatro filhotes que ali permaneceram até o fim de suas vidas. Gabriel absorto nada via e Ezequiel agora presenciava um broto de carvalho desenvolver, crescer, se agigantar e enrugar com as intempéries depois secar. Foi quando resolveu falar; Samuel aguardava pacientemente uma resposta.

            _ Aceito. Pelo menos de minha parte digo que não me custará muito ter que pernoitar por aqui. O que na verdade me causará sacrifício será arrastar-me e adaptar-me a lentidão deste ciclo na terra. Sabe como é penosa nossa estadia fora de nossa dimensão. O tempo se arrasta nesta outra vibração e o peso das culpas nos afunda no solo onde o Mestre passou a maneira de cágados. [1]

            Gabriel levantou os olhos do chão e o que no princípio foi um sorriso tímido foi se transformando em uma sonora risada que ecoou no ar. Enquanto ria, nuvens se agruparam, o sol foi encoberto e trovões ribombaram no espaço com o eco de seu riso solto e límpido.

            _ Gabriel... _ Falou Samuel como censurando uma criança.

            _ Desculpe. _ E, dando um ligeiro e leve asopro desfez aquele emaranhado de nuvens que duraram na terra quarenta dias e quarenta noites. E o dilúvio terminara. Noé em algum lugar daquela vastidão encontraria um lugar para ancorar e soltar a bicharada. A vida se reiniciaria.

            _ Tudo certo então? _ Perguntou Samuel, o mais velho olhando agora fixamente os olhos dos jovens anjos. Ambos assentiram. E continuou: _ Então é chegada a hora, cada segundo nosso equivale a trezentos e sessenta e cinco dias e noites.[2] Não desperdicemos o tempo do Senhor. Prepare-se Ezequiel teu tempo é chegado, sairás por aquela fenda neste momento. Esteja com Ele. [3]

            Ezequiel levantou e caminhou de olhos fixos no que o aguardava do lado de fora. Encolheu as asas e as guardou sob a pele. Quando colocou os pés fora da gruta encontrou um mundo em fase de mudança e ajuste.

            Era o ano de 1960.[4]

 

 

A abertura esta bem construída. É assim mesmo que se faz! Em trinta segundos entendi que os tres anjos conversavam, que vivem numa dimensão em que o tempo anda mais depressa.

 

Agora os probleminhas!

 

Se um ano humano passava num segundo dos anjos, como eles viam as folhas nescerem, etc. ¼ de segundo por estação do ano? Eu colocaria cada DIA nosso, ou cada HORA, equivale a UM ano humano. Este tipo de problemas mostra que não tinhas as cenas esquematizadas antes de começares a escrever. O ideal é criarmos ‘o mundo’ onde os nosso personagens vão habitar ANTES de montarmos o texto. Não li o restante do texto, mas antevejo a repetição do “probleminha”.

 

[1] Estás usando tu ou você? Há uma certa inconsistência de linguagem, imperativos mal usados etc. Como a cena está bem estruturada, esses detalhes se salientam. Se ao anjos usam português padrão, cuida para a linguagem seja consistente. Nesta frase notei que inseriste informação. Cortei, mas, se precisares inserir aquele detalhe, reescreve o diálogo, ficou artificial. Cria um pequeno conflito onde fique claro que “é penoso” passar para a outra dimensão. Repito: não estragues uma abertura interessante com descuidos primários. Sê um algoz de ti mesmo; corta, corta e corta!

 

[2] Aí está uma problemão. Sei que essa informação é necessária, mas acho que a ORDEM poderia ser melhorada. E depois, reescrita.

 

Prepare-se Ezequiel teu tempo é chegado, sairás por aquela fenda neste momento, não desperdicemos o tempo do Senhor quando cada hora nossa equivale a trezentos e sessenta e cinco dias e noites.

 

Ainda não me conformo com o diálogo, parece artificial. Talvez se, brevemente, um dos anjos estivesse questionando por que o tempo deles não é o mesmo tempo da terra? Não, tens que ver.

 

Observa que, sempre que fazes o editor parar para pensar, corres o risco de que ele passe para o próximo manuscrito na pilha! Tem isso em mente na hora da revisão.

 

[3] tu ou você?

 

[4] Separei a data em um parágrafo aparte porque é quando a história começa.

 

 

Espero que ajude.

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Irondino Torma - Março 2009

Olá Irondino,

 

Se leste os meus comentários no meu site www.mcsill.webs.com (chibatadas) vais concordar com o meu elogio: o teu texto está bem estruturado. Para o primeiro rascunho! Como está, se a história se prolongar por, digamos, cem páginas, ao final já não vou aguentar o ritmo. Não que o ritmo esteja ruim, antes pelo contrário, mas é muito da mesma coisa.

 

Solução:

 

O que for importante para a cena: deixa como está.

O que for menos importante: resume em narração ou descrição.

 

No meu site pus um artigo sobre ritmo. Não tem importância que uses um ritmo como ação/ ação/ ação >> reação. Mas vai haver uma hora que tens de empurrar alguma coisa para o background. Se me enviares o texto completo, posso sugerir um caminho mais adequado.

 

Repito, como RASCUNHO está perfeito! Podes, a partir dele criar um belo romance.

 

Qual a sinopse da trama? (vê o artigo no meu site e me escreve uma sinopse).

 

Escrever é isso: tens de ter uma estória gritando para se manifestar e tens de deixá-la fluir, sem fricotes literários ou arroubos intelectuais.

 

Adorei as transições: para dizer “mais tarde”, disseste: mais tarde... para dizer “enquanto isso” – não é em quanto, mas não tem problema, isso é trabalho de revisor! – disseste: enquanto isso

 

Hoje em dia a gente compra livro pela estória, para ver no que vai dar. Por isso quero ver a sinopse do teu. Tem de ser bem amarradinha! Agora não podes me decepcionar!

 

TEXTO (sem revisão, aguardando a sinopse…)

 

- Alô

- Ricardo preciso limpar meu jardim você está trabalhando agora?

- Não, estou no ônibus estava indo para casa o senhor precisa para hoje?

- Sim, se você tiver disponibilidade quero.

- Claro, às duas horas estarei aí.

- Aguardo.

 

mais tarde...

 

- Cheguei

- Oi papai!

- Oi querida como você está, como foi à escola?

- Bem papai como foi seu dia?

- Se tudo continuar assim acho que quarta-feira terei uma entrevista porque hoje ouvi dois nãos já somam os sete nãos de sempre, agora falta a entrevista. E sua mãe?

- Está recolhendo a roupa. Papai olha desenho comigo?

- Filha agora o papai vai fazer janta, depois ok?

- Tá bom.

- Trouxe comida Ricardo?

- Oi, não vi você entrar e os meninos?

- Espero que o Welington esteja na igreja, e o Gustavo está trabalhando até porque ele é um dos poucos que trabalha e trás comida pra dentro desta casa. Vai fazer janta?

- Sim, vou preparar panquecas para Letícia e vamos jantar todos juntos hoje.

- Olha Ricardo tu não tem vergonha? Em plena sexta-feira tu vai fazer panquecas e acha que ta agradando? Os vizinhos aqui do lado o Oswaldo e a Cláudia vão pro restaurante novo com as crianças e tu aí, panquecas...

- É o que dá pra fazer, só consegui fazer o jardim do Coronel hoje, e as crianças gostam é de estar conosco e não se importam com a qualidade do prato.

- Não precisa por prato pra mim vou dormir cedo.

- E aí gente cheguei.

- Fala filhão como foi o dia?

- 100%, vou deixar essas comprinhas aqui em cima da mesa, tem que pedir pra mamãe guardar.

- Pode deixar que eu guardo. Você vai sair agora, não vai jantar com a gente?

- Tenho aula pai, mas volto quando terminar.

- Vai sair com seus amigos hoje?

- Vou sim, mas vou dar uma passadinha em casa antes. Diga pra Lú que amanhã vou levar ela no parque.

- Ok, ela tá olhando desenho lá no quarto, agora eu digo.

- Fui!

- Tchau.

 

 

***

em quanto isso...

 

 

 

- Deus abençoe. – grita um garoto.

- HAHAHAHAHAHA – Todos riam (debochavam) -

Voltando para casa enquanto descia a ladeira Wellington ouvia o deboche e as gargalhadas dos novos vizinhos, logo uma bola de futebol passa lentamente ao seu lado e um dos meninos grita:

- Vizinho chuta a bola pra cá faça o favor.

Já esperando o pedido Wellington baixou-se rapidamente e com o apoio da perna trouxe a bola até a barriga e quando conseguiu agarrar a bola com apenas uma mão jogou para os vizinhos.

- Tá com problema nos ouvidos vizinho, porque não chutou?

- É que estou com o livro.

- Ah essa é nova agora, só porque está segurando a Bíblia não pode chutar a bola?

- É por causa do sapato também.

- É sei...

Sem esperar pelo obrigado foi logo saindo e o que podia ter respondido preferiu calar, o fato de ter sido proibido pela mãe de falar com “os trombadinhas maloqueiros da rua”.

Sem falar no medo que sentia de um deles conhecido por ele com “mal-encarado”, que andava sempre sozinho ou às vezes na esquina do bar junto com outros jogando, mas pouco ou nunca conversava.

 

Alguns minutos depois Ricardo ouviu lentamente o ranger da porta, e esticando-se lentamente para trás viu seu filho cabisbaixo.

- Ué que é isso campeão? Tem que olhar pra frente se não você vai sai batendo nas coisas.

- Oi pai!

- O que aconteceu que você está assim?

- Nada não, só to meio cansado a gente tava arrumando as cadeiras pra amanhã de manhã.

- Humm, então porque você não toma um banho e vem fazer um suco de laranja pra gente devorar essas panquecas, hein?

Após um longo suspiro de cansaço, levantou-se e seguiu para o quarto.

- Já volto!

 

***

 

- Aí Gustavo hoje é sexta-feira mano, tu me deve as paradinha da semana passada e ta me devendo as menininha pra hoje mano.

- Beto amanhã pago tudo, hoje o playboy vai passa lá de certeza e vai acerta. As meninas tão na mão já.

- Criança abre o olho que essas parada pode fica feia pro teu lado mano, se tu não consegue segura a situação vaza enquanto dá.

- To ligado, to ligado, fui...

- Vai...

 

***

 

- Gente to saindo se me ligarem eu estou com o celular.

- Mateus te cuida por aí meu filho, sem bebedeira.

- Ok, eu volto cedo hoje. Tchau pai!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

gilson stadnicki - Março 2009

 Olá Gilson,

 

Observa como cortei a gordura inicial. Normalmente essa gordura acaba com qualquer obra.

Deve haver, eu não conheco, um editor sequer que me tenha dito “tirando a gordura, gostei”. NUNCA. Na abertura, uma palavra fora do lugar e estamos fritos. Sempre vai haver outras mil estórias como as nossas – ou melhores – gritando na fila. Se fores ao encontro que vou ter com autores em SP, vou abordar esse assunto. Por cima, 70% dos textos em português, candidatos à publicação, falham nesse quesito.

 

O problema é que não há regras! Mas, como o site é uma conversa entre amigos, arisco:

 

1.       Começa um pouco antes do incidente inicial. (Mário abriu a porta e…)

2.       Começa com o incidente. (Vagabundo! Vai comer a mulher de outro…)

3.       Começa logo após o incidente. (Saí  aos prantos. A Mariazinha e o jardineiro!...)

 

Um escritor com mais tarimba – principalmente os que escrevem literatura comtemporânea  podem ecolher entre dar uma geral no cenário, descreer um personagem, uma ação. Mas na literatura comercial a gente tem de fincar a faca e sair rasgando. E isso vale para TODAS as cenas, não somente asde abertura.

 

Comentários

 

 

 Os Bruxos de Cavelar

 

  No orfanato dos meninos, na Rua da Pirambeira sem número, subúrbios da cidade, onde dezenas de garotos órfãos, eram abrigados; morava Danilo Curamago ;que também era órfão,mas que com os outros meninos,em nada se parecia.

   Nilo, como era conhecido, gostava de ficar sozinho e falava enquanto dormia. Tinha os cabelos pretos como à noite e escorridos como o macarrão molhado, cortados em forma de tigela, que estavam à vida inteira a lhe cobrir os olhos. Não importava o quanto as tias do orfanato o aparassem, no outro dia estavam do mesmo cumprimento. ”Parece mágica” cochichou uma vez uma delas.

    Era também um pouco baixinho para a sua idade, assim como muito magro. Por essa razão, tornou-se a principal diversão dos valentões do orfanato, seu saco de pancadas.

   Mas não pensem vocês que Danilo era do tipo que fugia de uma briga, não tinha medo de ninguém e nem de cara feia, não tinha medo do escuro, de lugares fechados ou estórias de assombrações. Só havia uma única coisa que fazia com que Nilo tremesse nas bases: ele tinha pavor de alturas. E olha que não precisava ser um lugar muito alto para fazer com que o menino ficasse apavorado, escadas, janelas, telhados e até mesmo quando dormia no beliche, fazia questão de sempre estar na cama de baixo.

   Aqueles valentões, disso então se aproveitavam,todas as vezes que tinham uma oportunidade o agarravam,amarravam uma corda ao redor de sua cintura e depois a jogavam sobre uma viga de madeira que ficava no teto do refeitório,então o puxavam até em cima e depois prendiam a ponta da corda para que o coitado não descesse.O menino desesperado se debatia e gritava para que o soltassem,enquanto os outros se rachavam de tanto rir.

   Foi em um dia desses, enquanto Nilo se debatia pendurado, que Dona Dolores, cantineira do orfanato veio lhe buscar. [0]

 

 -Danilo Saramago! -Gritou a mulher de rosto vermelho e rechonchudo pondo as mãos na cintura. -Quero que desça daí agora mesmo,não sei como foi que subiu mas, se não descer agora, vai ter problemas,está me ouvindo? Hoje não estou com nem um pingo de paciência!

   -Mas Dona Dolores, não é minha culpa...

   -Não discuta comigo, seu mal-criado, e veja se me obedece!

   Os valentões do orfanato dos meninos [1], aqueles mesmos que o haviam pendurado, escondidos atrás da porta riam até as lágrimas de vê-lo nessa situação.

   -Olha Dona Dolores. Choramingou o menino. [2]Eu até queria sair, mas é que eu não sei como!

   A mulher que a essa altura parecia mais vermelha do que nunca,viu os outros garotos escondidos atrás da porta e os chamou.

   -Carlos, Alex!Sejam bons meninos e desçam logo essa criatura dali de cima.

   Os dois, fazendo-se de obedientes, correram a desfazer o nó que eles mesmos haviam dado, soltando a corda e fazendo com que Nilo despencasse no chão duro do refeitório.

   -Que isso lhe sirva de lição. – Disse [3] a mulher enquanto o garoto, sentado no lugar em que caíra gemia de dor. Da próxima vez em que inventar de subir em alguma coisa, pense primeiro em um meio de descer. Agora me siga que estou com pressa e a senhora Diretora quer falar com você o mais rápido possível.

   Nilo a seguiu, todo dolorido.

   “Que será que a dona Diretora quer comigo agora? “Pensava.” [4]Será que colocaram de novo, um rato morto em sua gaveta de roupas íntimas e disseram que fui eu, ou dessa vez inventaram algo novo para me ver levar um castigo?”.

   Pois era sempre mesmo [5] desse jeito,desde o primeiro dia em que chegara naquele lugar,aos seis anos de idade, todos o evitavam,não tinha amigos e nas brincadeiras e no timinho de futebol era sempre posto de lado.

 

 

[0] Gordura. Se houver necessidade de introduzir alguma coisa que cortei, introduz mais tarde. O leitor motiva, espera, o aborrecido, fecha o livro e devolve à prateleira.

[1] Olha só. Já achei um lugarzinho para intruduzir a informação do “ONDE” a estória se desenvolvia.

[2] Vais ter de reescrever esse pedacinho (tag). A gente não choraminga palavras, no mínimo a gente “diz/fala choramingando”. É um deslize muito engraçado, e há mestres que não se importam com isso. Já li diálogos assim:  - Te amo – sorriu. – Também te amo – o peito saltou. Se a gente pensar nessa cena como se fosse um filme, a coisa ia ficar cômica. Normalmente, muito choro, choramingo, lágrimas, peitos saltando, arfando etc matam o romance na hora. O diálogo em si tem de mostrar, sem muitos apêndices. Quando escrevo, marco tudo com o arfar, saltar, chorar etc. Na hora de editar, reescrevo a cena e vou retirando um a um!

[3] Eu inverteria. Começava pelo garoto, uma ‘dica’ de que a mulheria falar e a fala da mulher. Mas aqui é opinião mesmo.

[4] Se as aspas significam PENSAR, não precisa dizer a mesma coisa duas vezes.

[5] Não se deixa NADA de gordura…

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Eduardo Schroeder - Março 2009

Eduardo.

 

Quando li teu texto, pensei na tua idade. Ontem recebi um texto parecido – mesmo – e um gaúcho de 25 anos.

O teu texto e fácil de ler, “bem século 21”, literatura comercial.

Seria o tipo de livro que vou ao empório comprar uma camiseta e um boné, e levo para ler no acampamento. Esse tipo de estória tem futuro.

Claro que só li a abertura. Uma estória com esse ritmo não pode se alongar demais. Mas é o tipo de coisa que, depois de pronta, reserva uns dólares que eu faço os enxertos para ti.

 

Se a comparares com outras que comentei, não cortei nada, inicias no ponto certo. Há alguns probleminhas de português, que um revisor ajeita. (eu não sou revisor! A minha especialidade é criar estórias que vendam – sejam lidas, que nem sempre e a mesma coisa…)

 

Comentários

 

(eu fiquei meio perdido em que ponto de vista pretendes contar a estória, num e-mail me explicas melhor. Dependendo do PDV, uma coisa ou outra terão de mudar.)

 

BRAVURA!

 

– Não admito covardia no meu pelotão! – vociferou o comandante de queixo largo e acinzentado, salivando sobre a face do soldado.

– Ma-mas... eu... temo a altura como o diabo teme água benta... – gaguejou o soldado hesitante, desviando-se do olhar do superior que o encarava de cima para baixo; ante a ponte estreita suspensa, prestes a desabar.

 

 (vociferou e gaguejou estão muito próximas! Que tal iniciar assim:

 

O comandante de queixo largo e acinzentado salivava sobre a face do soldado.

– Não admito covardia no meu pelotão!

– Ma-mas... eu... temo a altura como o diabo teme água benta... – o soldado, hesitante, desviou o olhar do superior, que o encarava de cima para baixo; ante a ponte estreita suspensa, prestes a desabar.

 

- Ma-mas … eu… [o leitor já sabe que o soldado está gaguejando. Esse tipo de descuido pode acabar com o teu texto. REVISA bem. Editore – e leitores – não gostam se ser tratados como idiotas! [riso]] )

 

– Pois supere seu medo!

Aos empurrões e solavancos, o rapaz percorreu o piso de madeiras envelhecidas, sustentadas por cordas não mais novas. Atrás, o sargento avançava como um touro, sem qualquer vestígio de receio, mesmo com o ceder e estalar das tábuas.

“Uau, que coragem!” Pensou o jovem, tentando concentrar-se no outro lado da ponte.

 

Horas mais tarde...

 

A tropa marchava a passos largos, quando, adiante, um grito se ouviu. (hummmmmmmmmmmmmmm…[ ouviu-se um grito fica melhor, estás chamando a atenção do leitor para algo sem necessidade. ] Ninguém gosta de escritor “espertinho”. Deixa os teus truques para a trama, que está ótima, por sinal!)

 

Todos pararam.

O oficial, irritado, permeou a fila, aos berros:

– Quem, miserável, parou de andar!?

– Eu... se-senhor! – pestanejou o primeiro sargento, batendo continência.

– É bom que tenha um ótimo motivo para isto!

Antes da resposta do subordinado, um chocalho ecoou a centímetros do oficial.

– Eis o meu ótimo motivo, senhor! – o subalterno grunhiu, apontando tremulamente para o chão, onde uma cascavel levantava a cabeça, preparando o bote.

– Onde? – o comandante dissimulou não ver a serpente. – Ah, isto aqui não é um ótimo motivo. Sequer é um bom motivo! – exclamou com ímpeto incontido, enquanto agarrava o pescoço e estrangulava o réptil.

 

(não estragues uma boa estória com tremeliques. O coitado já ‘grunhiu’ – “menos e mais” – já sei que ele está se borrando! Editor é leitor… --olha acima.)

 

Arremessou o bicho morto sobre o amedrontado sargento, que se esquivou em um grito efeminado. (como não sei de qual PDV contas a estória, fico em dúvida quanto ao adjetivo. Se o PERSONAGEM for homófobo, tudo bem. Se for a AUTOR, vai ter editor jogando o texto na pilha dos rejeitados. Esses detalhes são importantes hoje em dia.)

 

 

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Pedro Lavirod - Abril 2009

O Pedro me enviou a abertura de seu romance.

 

O MUNDO CÔNCAVO

 

1 [Era fantástica a extensão do túnel que os separava do mundo interior, esculpido a laser, em inexoráveis rochas, mas, em pouco tempo, a cápsula em que foram colocados deslizou suavemente sobre um imenso colchão magnético. Estavam sobre uma magnífica plataforma de granito róseo, sob uma cúpula de cristal que deixava os sutis raios de sol vazar de encontro aos incrédulos e temerários semblantes dos novos visitantes de Agharta, um admirável continente ainda oculto. Ali, empreenderiam uma extraordinária aventura, que marcaria para sempre a vida de dois jovens pesquisadores, cheios de sonhos e uma enorme vontade de desvendar o desconhecido, que até os atormentava.

Ao lado da cúpula que os envolvia, havia uma enigmática montanha rochosa, com uma abertura central retangular, formando um grande portal natural. À frente, inúmeros fragmentos de rochas entalhados pelo tempo, espalhados pelo chão, e sete desenhos rupestres nas paredes frontais, um deles, sugerindo um ser robotizado como que observando-os, dava um estranho tom cibernético àquela insólita recepção.

Após alguns demorados segundos, a fria e delgada cápsula onde se encontravam abriu-se. Um corpo esguio e alongado levantou-se, mais parecendo uma crisálida expelindo um enorme e desajeitado lepidóptero de suas entranhas.]

 

— Doni, você está bem? — perguntou Pierre, enquanto seus brilhantes olhos azuis observavam em seu pulso esquerdo um elegante relógio Cartier, marcando onze horas e trinta e sete minutos, de uma inusitada quarta-feira, 14 de outubro de 1998.

Silêncio, daqueles frios e inquietantes.

— Mon ami... mon ami! Eu falei com você!

De novo, apenas o silêncio.

 

2 [Apesar dos apelos feitos por Pierre — um dedicado jovem, arqueólogo e pesquisador francês —, seu amigo sul-americano parecia estar morto, tamanha a palidez estampada em seu rosto, semelhante às figuras de cera, comuns em casa de horrores e museus.]

 

— Mon Dieu, Doni! — gritou Pierre, pela última vez, com a voz já sufocada e a mente tomada por maus presságios, quando, finalmente, as pálpebras de seu amigo entreabriram-se, em sintonia com um gemido abafado, provocando-lhe uma indescritível e gostosa sensação de alívio em seu coração.

— O-onde estou? — foram suas primeiras e sussurrantes palavras, depois daquela inesperada viagem que os levara do ponto em que se encontravam, pesquisando nas imediações de uma misteriosa gruta no sopé da Serra do Roncador — um dos Sete Portais —, próximo ao rio Manso ou das Mortes, em Mato Grosso, no coração do Brasil, para o ainda desconhecido continente interior ou Mundo de Agharta.... Eles simplesmente avançaram no limite do insondável, mexendo com poderosas forças, até então somente reveladas a iniciados.

 

 

Pedro,

 

Vamos aos comentários. Escolhi o não publicado para dar tempo de pensares!

 

O teu texto de abertura ficou denso demais. Observa que não cortei nada, mas sugeriria que rearranjasses a ordem das coisas.  Imagina se eu fosse fazer tricô e encontrasse vinte pontas se linhas, todas misturadas. O melhor é começar com apenas UMA linha, deixar o leitor achar o fio da meada e depois a gente vai acrescentando as outras.

O que numerei [1] em vermelho é o cenário da trama. Dissolve este texto e vai distribuindo aos poucos, somente quando for 100% necessário. Hoje em dia ninguém compra romance que começa com muita descrição. Acho que se trata de um romance de aventura, então, começa num ponto que traga o leitor para a aventura.

Imagina: a cortina abre e eu ouço: “Doni, você está bem?”  Isso é a essência de uma boa trama, ALGO MUDA. Ou seja, ALGO aconteceu com o Doni e eu vou ler mais para ficar sabendo!!!

Se abrires com “Era fantástica a extensão do túnel que os separava do mundo interior, esculpido a laser “ O leitor pensa: “sim… sim… e eu com isso?!” No entanto, no “Doni, você está bem?” eu penso: meu Deus, o que aconteceu com esse homem? Que é ele? Onde ele está? O que ele esta fazendo? Etc etc…

O que numerei [2], se ele e jovem e dedicado, deixa para me mostrar, já na trama, um ato de generosidade, talvez o sotaque –  ele é francês.  Não interrompas a ação com descrições. Deixa para ir mostrando aos poucos! A síndrome do autor afobado mata qualquer texto.

 

Bom, agora o que deixei em azul.

 

Tens de tirar também. Mas, ao reinserir, tens de editar bastante. Tem muita palavra. Um diálogo lindo, rápido, significativos, não pode ser afogado por descrições que, tenho certeza, podem via mais tarde.

 

Ah! Fiz um corte. Inverter ‘adj>>substantivo’ soa falso. Ou dizes palavras sussurrantes ou corta o adjetivo.

 

Olha como ficou o resultado. Tentei deixar nas tuas palavras: [abertura]

 

— Doni, você está bem?

Silêncio, daqueles frios e inquietantes.

— Mon ami... mon ami! Eu falei com você!

De novo, apenas o silêncio. Seu amigo sul-americano parecia estar morto, tamanha a palidez estampada em seu rosto, semelhante às figuras de cera, comuns em casa de horrores e museus.]

— Mon Dieu, Doni! — gritou Pierre outra vez, com a voz já sufocada.

— O-onde estou?

 

 

Boa sorte.

 

Envia-me os resultados!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Debora Haca - Abril 2009

A Debora me enviou este texto da Itália!

 

Sem título

 

O ruído das cadeiras rolando escada abaixo,a forte neblina  dos extintores e o coro de uivos e gritos confirmaram suas suspeitas.“A casa virou”, o medo invadiu seu corpo, paralisando-a por alguns segundos. L estava com a mão na maçaneta da porta  da Coordenação Pedagógica, quando estorou o primeiro sinal do motim Se recuperou do susto, sua mente e corpo entraram em ação. “Não há tempo de abrir a porta, Corre para as escadas!”

Juntou-se a outros funcionários que abandonaram seus postos de trabalho ao primeiro sinal de perigo. Ainda, havia uma vantagem do tempo, a favor refugiados. Os rebelados não tinham ocupado o segundo andar. Porém, a desejada liberdade foi bloqueada por  um cadeado que detinha o grande e forte portão de ferro. O  pavor  invadiu o grupo...

Surgiu uma funcionária com molho de chaves. Suas mãos tremiam e suas tentativas de encontrar a chave certa eram em vão, isso só aumentou mais a tensão do grupo.  Novamente, a mente e corpo de L trabalharam em sua defesa. Ela fitou os olhos da funcionária, disse com voz controlada e pausadamente,“Se você ficar nervosa não irá conseguir”. Em segundos, o portão foi aberto e o grupo saiu como um estouro de boiada.

 

 E respondi...

Sem título

 

O ruído das cadeiras rolando escada abaixo, a forte neblina  dos extintores e o coro de uivos e gritos confirmaram suas suspeitas.“A casa virou”, o medo invadiu seu corpo, paralisando-a por alguns segundos.

 

L estava com a mão na maçaneta da porta  da Coordenação Pedagógica, quando estorou o primeiro sinal do motim. Quando se recuperou do susto, sua mente e corpo entraram em ação. “Não há tempo de abrir a porta, Corre para as escadas!”

 

Juntou-se a outros funcionários que abandonaram seus postos de trabalho ao primeiro sinal de perigo. Ainda, havia uma vantagem do tempo, a favor dos refugiados. Os rebelados não tinham ocupado o segundo andar. Porém, a desejada liberdade foi bloqueada por  um cadeado que detinha o grande e forte portão de ferro.

 

O  pavor  invadiu o grupo...

 

Surgiu uma funcionária com molho de chaves. Suas mãos tremiam e suas tentativas de encontrar a chave certa eram em vão, isso só aumentou mais a tensão do grupo.  Novamente, a mente e corpo de L trabalharam em sua defesa. Ela fitou os olhos da funcionária, disse com voz controlada e pausadamente.

 

-- Se você ficar nervosa não irá conseguir.

 

Em segundos, o portão foi aberto e o grupo saiu como um estouro de boiada.

 

Ciao Debora,

 

Como abertura o texto está muito bom. Precisou de ‘revisão’ mais do que um editoramento substantivo.

 

Comentários:

  1. Em negro, vais ver as palavras que acrescentei. Talvez fosse erro de digitação, mas eram importantes para fluência.
  2. Separei os parágrafos e partes do texto para criar um ritmo. Esse trabalho, no entanto, deve ser do autor. Se o autor não for famoso, o editor, ou não mexe e acha  que está pobre mesmo e rejeita, ou, se estiver num bom dia, escreve recomendando que faça um trabalho de “paragrafamento” adequado e reenvie a trama.
  3. As linhas em verde, eu reescreveria para criar uma sequência à sentença seguinte. Há uma quebra de ritmo naquele parágrafo. Como não sei se há uma razão – a personagem poderá ser meio mal da cabeça e não pensa coisa com coisa – ou pode ter sido um lapso do autor. Se for o último caso, lê em voz alta e vê se percebes o que digo.
  4. A frase em marrom pode ser melhorada. MOSTRA ou corta ou reescreve. “Dizer pausadamente” acaba com o texto. Como vais mostrar isso? Não sei! Se fosse eu a escrever eu escreveria um diálogo em três linhas onde alguém notasse que ela falava devagar... algo assim. O texto é teu. Esses detalhes a gente tem de pensar bem, pois um editor pode pensar; “ o texto está pobre” ou “ o outro texto, que li antes, está melhor” e lá vai o teu para a pilha dos rejeitados. Sei, é cruel. Mas, mesmo cruel, a gente vai a uma livraria e passa horas até achar algo bom. Imagiona se não fosse! Se, por engano, compro um livro com texto frouxo, fico fantasiando devolvê-lo (para o autor) e pedir que me envie ume cópia nova, bem estruturadinha...  Ou um cheque em igual valor!
  5. Bom, e o diálogo também separei. Cuida para diferenciar o que é fala de pensamento. Xi...! Já estou entrando onde não devo, não entendo nada de formatação, copydesk, essas coisas...

 

Boa sorte.

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Taty - Abril 2009

A Taty é uma escritora de muito talento.

Ela domina bem o que mais se precisa num escritor moderno, o leitor e ‘convidado’ a vir participar da trama no momento exato. Coma Taty não tem passeiozinho pelo cenário. A bola cai e já sai rolando. Ainda vamos ouvir (ou ler) muito essa menina!

 

A Taty me enviou esse texto:

 

Las Vegas estava fervendo, assim como eu.

 

Entrei naquele bar tumultuado afim de realizar o meu fetiche mais secreto.

 

Caminhei até a mesa e esperei. Em pouco tempo ouvi uma voz rouca e senti o hálito quente de um americano qualquer, ele logo me perguntou se poderia me pagar uma bebida, aceitei sorrindo discretamente.

 

O jogo estava apenas começando.

 

-Brasileira?

 

-Sim, apenas de passagem.

 

-Casada?

 

-Quem sabe.., sorri e senti meu corpo estremecer.

 

-Pelo jeito não gosta muito de falar...

 

-Prefiro outras formas de expressão – disse-lhe enquanto mordia a cereja e fitava-o com malícia.

 

 

Ele me puxou pelo braço e eu simplesmente fui, seguindo o loiro alto, notando olhares de desejo de outros homens sobre mim, fazendo-me de ingênua.

 

Chegamos num carro preto e ele abriu a porta para eu entrar, obedeci imediatamente. Ele, então , sentou-se e colocou uma música lenta , acelerou e começou a percorrer a cidade numa velocidade incrível.

 

-Está com medo?

 

-E por que estaria? Adoro sentir o vento, adoro essa sensação de liberdade.

 

Ele apenas sorriu e acelerou mais ainda.

 

Senti a mão dele deslizar sobre a minha coxa e ele a apertava com força, senti dor, mas não pedi que ele parasse, eu queria mais.

 

Enquanto sentia o vento, aquela mão indiscreta ia entrando cada vez mais em minha saia e ele continuava a me apertar com mais e mais força, até alcançar o elástico de minha calcinha e puxar de leve.

 

Veja como ficou depois da chibatada.

 

Las Vegas estava fervendo, assim como eu.

Entrei naquele bar tumultuado afim de realizar o meu fetiche mais secreto.

Caminhei até a mesa e esperei. Em pouco tempo ouvi uma voz rouca e senti o hálito quente de um americano qualquer, ele logo me perguntou se poderia me pagar uma bebida, aceitei sorrindo discretamente.

O jogo estava apenas começando. [1]

-Brasileira?

-Sim, apenas de passagem.

-Casada?

-Quem sabe [2] Talvez... –, sorri e senti meu corpo estremecer.

-Pelo jeito não gosta muito de falar...

-Prefiro outras formas de expressão – disse-lhe enquanto mordia a cereja e fitava-o com malícia.

Ele me puxou pelo braço e eu simplesmente fui, seguindo o loiro alto, notando olhares de desejo de outros homens sobre mim, fazendo-me de ingênua.

Chegamos num carro preto e ele abriu a porta para eu entrar.

Obedeci imediatamente. [3]

Ele, então, sentou-se e colocou uma música lenta, acelerou e começou a percorrer a cidade numa velocidade incrível. [a]

-Está com medo?

[2.1] - E por que estaria? Adoro sentir o vento, adoro...essa sensação de liberdade.

Ele apenas sorriu e acelerou mais ainda.

[......] [b]

Senti a mão dele deslizar sobre a minha coxa e ele a apertava com força, senti dor, mas não pedi que ele parasse, eu queria mais.

Enquanto sentia o vento, aquela mão indiscreta ia entrando cada vez mais em minha saia e ele continuava a me apertar com mais e mais força, até alcançar o elástico de minha calcinha e puxar de leve.

 

 

A abertura está bem.

Cuida os detalhes técnicos. Lembra-te que, um editor/ agente vai ler, não podes ter “errinhos” de ritmo ou de estrutura além da conta. Mesmo que a trama seja boa, o editor vai ter preguiça de editar e o texto ‘dança’. Hehehehe.

 

[1] Eu SEI que o jogo começava, não precisas me dizer. Leitor gosta de SOFRER, mas não gosta de ser chamado de burro.... hehehe

[a] escreve do ponto de vista da cidade passando por eles. [ex.: o minha cara bateu na porta v. Via a porta de aproximar da minha cara a mil por hora]. Notaste o efeito? O personagem está excitado sexualmente, portanto não fica “percebendo”, mas fica “absorvendo” o ambiente. Um “errinho” de ambientação desses pode levar um texto a ser rejeitado.

[3] Tirei o advérbio. Advérbios enfraquecem um texto. Olha o TRUQUE. Deixei a palavra sozinha – em paragrafo único para passar a ideia de “imediato”. Não narra/descreve – MOSTRA. O leitor gosta de SENTIR.

[2] Se ela é de ‘poucas palavras’, USA UMA, já que ‘quem sabe = talvez’. [2.1], usei o mesmo TRUQUE, deixa a moça ser de ‘poucas palavras’, aumenta a tensão – e o tesão! Leitor adora ser bolinado!

[b] falta um “beat”. O ritmo está quebrado.

 

 

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 
 

Eduardo - Maio 2009

Eduardo,

 O argumento que me enviaste está bem construído, o que não quer dizer que venda. Tu me passaste apenas uma “estória”. Ao menos para mim, observa que é minha opinião apenas, a trama não me pareceu excepcional.

 Do lado técnico, o prólogo está no ponto de vista do aluno ou do professor? E o epílogo? Do professor? Imagino que no cerne do texto esses serão os dois PDV da trama. Se não for o caso, eu usaria o prólogo e o epílogo como “frames” (molduras da trama) e usaria apenas UM ponto de vista. O prólogo, de qualquer forma, está uma salada de PDV’s. Mesmo autor experiente tenta apenas mudar de PDV a cada cena/ sequência, poucos a cada linha. Os que tentam, distraem o leitor, pois a gente fica sem saber onde o autor posicionou a câmera. Só autor famoso é que comete barbaridada  e a gente perdoa!

 Prólogo

 “Deus existe”.

O professor rabiscou a lousa.

- Como pretende me convencer disso? – gritou o aluno universitário, com um sorriso irônico e olhar inquisidor; do segundo assento da quarta fileira, em meio ao cochicho do auditório repleto. [PDV do aluno]

- Não pretendo. – (o idoso professor sorriu simpático, despretensioso, enquanto ajeitava os óculos circulares no rosto enrugado. [ a não ser que ele estivesse se vendo no espelho essa descrição não se encaixa. Sei que a gente pode usar a palavra “imaginou-se”; mas o texto ficaria forçado] )– tudo o que posso fazer por você, filho, – [seus olhos brilharam [mesmo problema] – é contar como eu me convenci...

 Epílogo

 - Foi assim que me convenci! Esta foi a herança deixada por meu pai... ele me fez enxergar que eu vivia na caverna. – uma lágrima escorreu, permeando as espessas lentes dos óculos, até ser interceptada pelas mãos grossas do professor. – Eu achava que era o senhor da verdade...

  [se o leitor, até esse ponto no livro, não se deu conta de que FOI ASSIM QUE ELE SE CONVENCEU, sinceramente, já deve ter fechado o livro e parado de ler a estória muito antes. Em ambos os casos, acho, o epílogo não seria mais necessário.]

 Sugiro que repenses a estrutura e que adiciones uma boa dose de pimenta [spice] na trama para que ela se torne excepcional. Infelizmente, num mercado onde nem 2% dos bons textos "vê" a corzinha da tinta, ter talento e escrever bem são dois passo importantes -- dois -- para trilhar o longo caminho até se chegar a um texto excepcional.

Qual o truque para se chegar a um texto excepcional? Não sei! Se soubesse, escreveria eu mesmo um. Mas sei reconhecer quando encontro um desses diamantes raros. E quem pode fazer um texto raro é o autor de talento. E talento tens... A bola está no teu campinho. Escreve uma coisa que me surpreenda e me envia!

 Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Saulo - Maio 2009

Olá Saulo,

 Eu entendo o teu entusiasmo com o texto. Contudo, como está, na minha opinião, soa como uma “apologia”

(Olha o título! Pessoalmente, eu cortaria, pelo menos o “AMAZÔNIA BRASILEIRA”. O que, aliás, repetes mais abaixo no texto.)

 Observa que, quem ama o personagem e a estória tanto quanto tu vai adorar, bastaria mandares o texto para um bom revisor antes de publicar. Se não for muito longo, publica o texto como e-book. Hoje há o Clube do Autor que publica POD, onde podes fazer uns trocados.

 Mesmo que a tua pretensão seja modesta, eu cortaria uns pedacinhos para agilizar a trama e jogar o leitor no meio da coisa. Notei que escreveste quatro parágrafos (não muito longos, ainda bem) de ‘enchimento’ antes da trama iniciar.

 Se fosse eu o teu editor, apenas esse pedaço se salvaria nas 16 linhas:

 INTERIOR DA MAIOR FLORESTA DO MUNDO    

AMAZÔNIA BRASILEIRA

    O calor intenso e as muriçocas não perturbavam e nem faziam o  ‘’ Morubixaba ‘’  Krokrenum , da tribo dos índios Kampas, sair do torpor do transe” no estado de meditação a que se encontrava .

   A tribo estava acampada  nas margens do rio Juruá, a dez quilômetros da fronteira do Acre com o Peru .  

    Sentado na beira da fogueira quase apagada, ele olhava absorto  para a sua família que dormia em  redes  esticadas e presas em árvores , perto da  entrada de uma grande palhoça feita de folhas de bananeiras e palmeiras. Ele sentia uma leve e inebriante   sensação de felicidade.

    Os olhos extasiados do cacique, percorriam vagarosamente as fisionomias dos seus  guerreiros.  Eles dormiam em esteiras espalhadas pelo chão e roncavam  alto .

       Fazia parte da meditação  do guardião da tribo , olhar tudo em volta e deixar o espírito vagar livremente entre os ”*Jiraus,” com cestos de vime , panelas e vasilhames  de barro . Um pouco além da fogueira, algumas aves exóticas estavam inquietas nos poleiros, e logo abaixo, uma matilha de cães dormiam, deitados  sobre peles de animais selvagens   esticadas em grandes varais, espalhados sobre o chão umedecido pelo sereno .

      O cenário estava completamente anormal,  naquela  noite calma  porém,  imprevisível  na  grande floresta amazônica.

    O velho índio deu uma tragada no ‘’ Petenguá “ e notou que o mesmo estava quase apagado, ajeitou as folhas novas do ”Epadú” e,  instintivamente , aguçou os sentidos,  e percebendo que tinha algo estranho no ar.

 

Se fosse eu a escrever, eu retiraria as palavra ESTAVA e via outro jeito mais criativo de dizer a mesma coisa. Não chega a ser muito relevante, mas tem muito ESTAVA para pouco texto. Pensa nisso.

 

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Cláudia, maio 2009

Cláudia.

 Esse livro vende. Li o comecinho e quero ler mais. Todo mundo que viaja de avião vai querer ler.

Capricha porque tenho até idéia de que editora vai querer publicá-lo!

 

Por quê no Céu?

 Durante o período em que voei como comissária de bordo da Varig, vi, ouvi e vivi inúmeras histórias, a maioria delas engraçada, outras nem tanto, mas todas interessantíssimas, de tal forma que as gravei mentalmente. Daquelas que tinha vaga lembrança, recorri a depoimentos de colegas para não deixá-las voarem pelos céus do mundo e serem esquecidas nas nuvens. Esse foi o objetivo que me levou a escrever o Estrela Brasileira: para que a história da Varig e de seus tripulantes não se perca “no ar”.

 Em agosto de 1972, tive a oportunidade de sair do casulo familiar e botar o pé no mundo, assumindo de vez a índole de viajante contumaz, que era um dos componentes de meu espírito aventureiro, descoberto por mim ainda na infância. Lembro-me, com clareza, daqueles dias – recém entrada na adolescência – em que andava pelo centro de Porto Alegre em direção ao Colégio Pio XII (onde cursava o ginásio), bem ao lado do Palácio Piratini, e se via algum carro com placa do Rio de Janeiro... pensava logo: “se entrasse furtivamente no porta-malas será que o motorista me descobriria no decorrer de sua viagem de volta?”. Essas divagações já eram os primeiros sinais de um profundo desejo de conhecer outros lugares.

 

Pronto. Foi uma chibatada fácil de fazer.

Deixa o parágrafo que cortei para mais tarde, ou dilui as informações pelo livro. COMO escreveste o livro não interessa ao leitor, o que interessa e uma boa estória. E isso o teu livro promete. De repente, usa aquele parágrafo na orelha. Que tal?

 

Angela Monteiro - maio 2009

 Olá Ângela,

 Para o tipo de história que te propões a contar, na minha opinião, deverias começar em media res – isto e, uns poucos segundos após a ação ter iniciado. Como se tivesse ligado a câmera para filmar a trama e ela estivesse em andamento. Temos de criar uma certa curiosidade no leitor, instigá-lo a descobrir coisas.

 Mas não vai importar ONDE o personagem se encontra antes de sabermos quem ele é e o que vai acontecer?

 Não realmente. A não ser que o meio de transporte seja o foco da trama – ou a cor do meio de transporte – por que iniciar “ Sentada dentro de um microônibus todo azul…”? Liga o holofote já em quem interessa: o personagem e os sentimentos dos personagens.

 Em vez de fazer cortes [que fiz, na verdade, compara a tua versão com a minha] rearranjei a ordem do texto. O texto pode estar razoável, mas se estiver numa ordem “fraca” perde a capacidade de gerar IMPACTO.

 (versão original)

 Sentada dentro de um microônibus todo azul, respirava fundo e abria meus olhos, que teimavam em permanecer fechados. Ali estava eu, com meus 37 anos, indo ao encontro de um outro emprego. Embora continuando a trabalhar como auxiliar de enfermagem, serviço que exercia desde os meus dezoito anos, me sentia um pouco apreensiva, pois estava me dirigindo a uma Instituição Psiquiátrica e lá tudo seria bem diferente de todo o trabalho que eu exercera até a presente data.

Dentro da condução, ao meu lado, estava Soninha, minha amiga de muitos anos, com mais três rapazes e quatro moças, completando assim o número de novos funcionários. Meus colegas falavam sem parar, contando histórias e mais histórias sobre o nosso novo local de trabalho.

- Eu ouvi falar que lá, quase todo mês morre um; ás vezes de causa natural, mas as maiorias das mortes são atentados contra a própria vida ou brigas violentas entre os internos. – Comentou um deles.

Outro colega mais brincalhão tentou quebrar a dura realidade do comentário anterior.

- Espero que nossa condução não demore muito a chegar, pois poderemos encontrar somente cadáveres por lá, e perderemos o emprego sem termos trabalhado um só dia.

 (versão pós chibatada) 

- Eu ouvi falar que lá, quase todo mês morre um; ás vezes de causa natural, mas as maiorias das mortes são atentados contra a própria vida ou brigas violentas entre os internos.

Outro colega mais brincalhão tentou quebrar a dura realidade do comentário anterior.

- Espero que nossa condução não demore muito a chegar, pois poderemos encontrar somente cadáveres por lá, e perderemos o emprego sem termos trabalhado um só dia.

Meus colegas falavam sem parar, contando histórias e mais histórias sobre o nosso novo local de trabalho. Dentro do microônibus, ao meu lado, estava Soninha, minha amiga de muitos anos, com mais três rapazes e quatro moças, completando assim o número de novos funcionários.

E ali estava eu, com meus 37 anos, indo ao encontro de um outro emprego. Embora continuando a trabalhar como auxiliar de enfermagem, serviço que exercia desde os meus dezoito anos, me sentia um pouco apreensiva, pois estava me dirigindo a uma Instituição Psiquiátrica e lá tudo seria bem diferente de todo o trabalho que eu exercera até a presente data.

 Eu não vou comentar sobre a qualidade da linguagem porque não sou nem parecerista, nem revisor e não tenho prática de copydesk. Mas calculo que, depois de bem estruturado, o texto venha a precisar de uma boa revisão.

A premissa da trama está interessante, mas para uma tentativa de publicação no exterior, o texto deveria ser profundamente reestruturado. Neste caso, a linguagem não importaria, já que seria traduzido.

 Boa sorte.

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Mariana Dias - Junho 2009

Olá Mariana,

 A história pode vir a prometer.

Gostei como descreveste a tempestade. Vívido!

Mas...

 Segue o texto original.

 Os pingos da chuva se misturam com o sangue que escorre do corpo de uma mulher que está caído, inerte, ao lado de uma rodovia.

O volume de água que desce pela pequena encosta , arranca plantas e muita terra . A enxurrada escorre pela pista asfaltada, desmoronando em alguns trechos parte dela. O corpo  da mulher escorrega  juntamente com a terra desbarrancada ficando parcialmente soterrado alguns metros abaixo. O taxi que levava  a mulher desliza mas fica preso em alguns galhos de árvores , impedindo que o veículo vá até o final do barranco. A lama escorre, passando pelos braços e mãos descobrindo com a violência das águas parte do rosto da soterrada. A água de cor barrenta desce a escosta abaixo fazendo zig-zag  e se transforma ao chegar num pequeno riacho num manto avermelhado . Um forte relâmpago faz uma claridade e barulho fenomenal mandando para o inferno as almas ali exitentes. No painel do carro acidentado o relógio marca o dia , a hora e os minutos da tragédia; 31 de março 6:01h.

 Abaixo, o texto comentado.

 O ponto de vista, importantíssimo neste tio de trama, imagino, é o do taxista. Cuida para que, no meio da tempestade, pelo para-brisa molhado, ele possa ter visto os detalhes. Outra coisa, de acordo com o que pude pesquisar na Internet, dia 31 de março, no Brasil, as 6:01 da manhã ainda está ESCURO. Se for à tarde, vais ter localizar a trama no extremo sul do RS.

 A luz do relâmpago vem DEPOIS que o PDV (taxista) viu a cena. Hmmmm.......... Mesmo assim, a luminosidade não teria durado tanto tempo.

 Sugiro que repenses a cena, e as cenas que se seguem. Embora razoavelmente bem narrado, se eu estivesse selecionando para publicar, teria sido rejeitado. E a narração está muito boa!

 Os pingos da chuva se misturam com o sangue que escorre do corpo de uma mulher que está caído, inerte, ao lado de uma rodovia.

O volume de água que desce pela pequena encosta , arranca plantas e muita terra . A enxurrada escorre pela pista asfaltada, desmoronando em alguns trechos parte dela. O corpo  da mulher escorrega  juntamente com a terra desbarrancada ficando parcialmente soterrado alguns metros abaixo.

O taxi que levava  a mulher desliza mas fica preso em alguns galhos de árvores , impedindo que o veículo vá até o final do barranco. A lama escorre, passando pelos braços e mãos descobrindo com a violência das águas parte do rosto da soterrada. A água de cor barrenta desce a escosta abaixo fazendo zig-zag  e se transforma ao chegar num pequeno riacho num manto avermelhado . Um forte relâmpago faz uma claridade e barulho fenomenal mandando para o inferno as almas ali exitentes. No painel do carro acidentado o relógio marca o dia , a hora e os minutos da tragédia; 31 de março 6:01h. (pensa em outra hora)

 

Deixo para ti rever o texto e me fazer acreditar que o PDV pôde ver tudo isso. Até o avermelhado do riacho.

 

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Cristina Lasaitis - Julho 2009

A Outra Metade

 “O Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.”                                                      

(Platão, O Banquete

Solidão é a palavra. A minha palavra. O meu hábito. Eu a visto como a noiva veste branco e a viúva veste preto. Então não me olhes assim, pois o que trago é imaculado, é centelha espontânea que fulgiu na escuridão. E ainda que não fosse eu não me importaria. Se não acreditares, tampouco importa, pois não me incomodam os outros ou o que eles fazem com aquilo que pensam.

            O que te conto é a história do único Amor da minha vida. Deixa Platão falar. Guarda esse parágrafos, principlamente essas emoços para mais tarde na história, se a história em si já não nos levar a senti-las. Quando a abertura ‘grita’: olha como esse autor escreve bem, o inglês pode achar de mau-gosto. O americano acha intelectual demais, ‘coisa de europeu’. Escrever abertura e terrível. A gente nunca sabe!

 

Minha vida é uma gota d’água límpida e redonda, delimitada pela tensão superficial de um tempo restrito. Um pingo no oceano da eternidade – do eterno sem-tempismo da metrópole. Apressada, eu fluía como um elétron na trovoada da multidão.

            Eu começaria aqui. No SOZINHA. Diz tudo!!! O parágrafo acima é “padding” apenas. Corta!

 

            Sozinha.

Tanto e tãomente comigo mesma, assim estava eu em meu primeiro ano de noviciado como a sacerdotisa moderna dos oráculos da solidão.

E tendo ao lado o silêncio da minha companheira inseparável, eu atravessava os corredores de edifícios sufocantes, estonteada pelo ruído tonitruante dos escapamentos a enturvar a vermelhidão do crepúsculo com incensos de fuligem. À deriva no fluxo da maré humana, eu nadava rumo ao meu templo de isolamento, ansiando por mergulhar no silêncio sagrado que amplifica a voz dos meus pensamentos. A cidade fazia despertar em mim um respeito profundo, pois nas imensidões de concreto jazia encarnada uma entidade mais primeva que o próprio mundo – o Caos. 

A Outra Metade

 “O Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.”                                                           

(Platão, O Banquete) 

            Sozinha. E tendo ao lado minha companheira inseparável, eu atravessava os corredores de edifícios sufocantes, estonteada pelo ruído tonitruante dos escapamentos a enturvar a vermelhidão do crepúsculo com incensos de fuligem. À deriva no fluxo da maré humana, eu nadava rumo ao meu templo de isolamento, ansiando por mergulhar no silêncio sagrado que amplifica a voz dos meus pensamentos. A cidade fazia despertar em mim um respeito profundo, pois nas imensidões de concreto jazia encarnada uma entidade mais primeva que o próprio mundo – o Caos.

 

Se me permitires uma abertura “quente” – se o teu editor tivesse me pedido para estruturar para vender nesse mercado:

         A Outra Metade 

        Nas imensidões de concreto da cidade jazia encarnada uma entidade mais primeva que o próprio mundo – o Caos.

        Sozinha. E tendo ao lado minha companheira inseparável, eu atravessava os corredores de edifícios sufocantes, estonteada pelo ruído tonitruante dos escapamentos a enturvar a vermelhidão do crepúsculo com incensos de fuligem. À deriva no fluxo da maré humana, eu nadava rumo ao meu templo de isolamento, ansiando por mergulhar no silêncio sagrado que amplifica a voz dos meus pensamentos. 

Tu tens uma prosa ultra poética e um controle de linguagem fabuloso.

Isso pode ser uma faca de dois gumes. Escritores como tu têm a tendência para o que a gente chama de ‘padding’ – são bons de recheio. E é muito difícil para o  editor cortar ‘padding’ pois é lindo de morrer! Mas as masas estão habituadas a Hollywood, Mills and Boons etc... Podem ficar com medo de investir e não haver retorno.  

Boa sorte!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com 

Bernardo Vieira - Julho 2009

Ola! 

Raramente faço trabalho de editor, já que editores fazem um trabalho que vem logo após o meu ( o editor lida com o TEXTO eu lido com o AUTOR). No entanto, li boa parte de tuas páginas rezando para que, quem for julgar os concursos, veja a força da tua história para além dos probleminhas de edição. Fiquei impresionado com o teu talento de “film-maker”/ “realizador”. As cenas ficaram bem filmadas, ponto de vista impecável (bem se vê que sabes escrever um guião). Se tivesses me aparecido antes, eu teria me oferecido para editar o teu texto antes de o apresentares ao concurso! 

Seguem-se alguns comentários. 

Como a tua “sequenciação” é muito boa, verás que o teu maior problema é “estruturar” para ir mais fundo (cortar e colar para impressionar!), e ganhar um corncurso, por exemplo. Se o teu texto fosse em inglês isso seria visto como problema de editor, mas, como escreves em português, espera-se que o autor “assobie e chupe cana”.  

ORIGINAL 

O terminal está quase deserto.

Sento-me à espera que as portas do expresso se abram e me levem para o temível desconhecido. Sinto que devia ter partido de manhã. Partir de viagem à noite é como partir para a morte, penso.

Começo a sentir-me ansioso com este pensamento. Aterrorizado, mesmo. Na minha cabeça elaboro cenários de miséria e aflição, e todos acabam em morte.

Para me acalmar, puxo do bolso a morada da agência inglesa de trabalho temporário que tirei da internet. Desde que tenha trabalho estarei bem... Desde que tenha um trabalho. E na página da agência dizem que aparecem sempre trabalhos.

A agência fica em Cambridge… Inglaterra…

Eu nunca saí de Lisboa! E vou chegar lá teso… Isto é uma loucura… Se calhar fico é por Lisboa e olha, cá me arranjo! Não. Respiro fundo. Lembro-me da razão porque me vou embora. Acalmo-me. O que quer que tinha de começar, já começou. Não posso voltar para trás, digo para mim mesmo.

Reparo que no cimo da minha folha aparece uma formiga preta.

 MINHA OPINIãO

 Partir de viagem à noite é como partir para a morte, penso. (a)

O terminal está quase deserto. (b)

Sento-me à espera que as portas do expresso se abram e me levem para o temível desconhecido. Sinto que devia ter partido de manhã.

Começo a sentir-me ansioso com este pensamento. Aterrorizado, mesmo. (c) Na minha cabeça elaboro cenários de miséria e aflição, e todos acabam em morte.

Para me acalmar, puxo do bolso a morada da agência inglesa de trabalho temporário que tirei da internet. Desde que tenha trabalho estarei bem... Desde que tenha um trabalho. E na página da agência dizem que aparecem sempre trabalhos.

A agência fica em Cambridge… Inglaterra…

Eu nunca saí de Lisboa! E vou chegar lá teso… Isto é uma loucura… Se calhar fico é por Lisboa e olha, cá me arranjo! Não. Respiro fundo. Lembro-me da razão porque me vou embora. Acalmo-me. O que quer que tinha de começar, já começou. Não posso voltar para trás, digo para mim mesmo.  (d) (e)

(Os meus olhos pesam)

Reparo que no cimo da minha folha aparece uma formiga preta

 (a) pelo próprio texto percebe-se que a personagem está pensando. Evita redundâncias.

(b) quem ler a cena até ao fim vai perceber que o terminal está vazio. O foco da cena e o mundo interior, quanto menos disseres do exterior melhor. A frase inicial disse tudo.

(c) percebe-se o terror. MENOS é mais. Quando mais disseres, menos aterrorizante fica. Terror é subjetivo, DIZER que está com medo nada significa, tens de MOSTRAR, o que fazes extremante bem na cena.

(d) na minha opinião, voltar atrás ou não pouco interessa ao leitor nesse momento. O dilema está bem posto! Para que melo-dramatizar? Outra coisa, “ir ou ficar” é uma coisa que, na vida real, a gente SENTE mais do que “diz para si mesmo”. Raramente expressamos dilemas “dizendo”.

(e) eu colocaria um “beat” antes da última frase, algo como “baixei os olhos” (baixar os olhos é cliché, tens de pensar num “beat” mais original, de acordo com o teu personagem).  Vê algo que indique que ele ‘agiu’ antes de ‘reagir’ (ver a formiga). Na sequência a FORMIGA vai ter importância, o “beat” sublinharia o termo.

 COMO FICARIA

 Partir de viagem à noite é como partir para a morte.

Sento-me à espera que as portas do expresso se abram e me levem para o temível desconhecido. Sinto que devia ter partido de manhã.

Na minha cabeça elaboro cenários de miséria e aflição, e todos acabam em morte.

Para me acalmar, puxo do bolso a morada da agência inglesa de trabalho temporário que tirei da internet. Desde que tenha trabalho estarei bem... Desde que tenha um trabalho. E na página da agência dizem que aparecem sempre trabalhos.

A agência fica em Cambridge… Inglaterra…

Eu nunca saí de Lisboa! E vou chegar lá teso… Isto é uma loucura… Se calhar fico é por Lisboa e olha, cá me arranjo! Não. Respiro fundo. Lembro-me da razão porque me vou embora. Acalmo-me. O que quer que tinha de começar, já começou.

Os meus olhos pesam.

Reparo que no cimo da minha folha aparece uma formiga preta 

Boa sorte!

Se não concordar comigo, me escreve.
james.mcsill@gmail.com